10 mil soldados americanos em ajuda ao Haiti. A mão que puxa o tapete também constrói. Às vezes, sem querer querendo.
Este ano, esta é a primeira linha que escrevo aqui. Não tem sido falta de matéria, ao contrário; falta de tempo também não; falta de disposição é possível. Agora volta.
Matérias sobre o Haiti sobram, tais quais imagens. A Folha traz uma foto de horror por dia (seguida de outra do São Paulo Fashion Week), e informa que novos desdobramentos da hecatombe podem ser acompanhados em tempo real, em seu site. Deus, tende piedade… quantas vezes é humanamente possível ser informado que a terra tremeu e milhares morreram?
E a Gisele contribui com um milhão e meio e todos ficaram sabendo e o nome dela apareceu em jornais ao redor do globo. Se tivesse que ter pago por tal publicidade, teria gasto muito mais. O que isso quer dizer? Nada. Só quer dizer o que quer dizer. Mas registro aqui meu respeito por quem doou e não apareceu.
Conforme fui ouvindo sobre a tragédia, os pensamentos foram se desdobrando sem quaisquer rédeas. Os primeiros em forma de questões; “mas quem será esse demônio que exerce seu poder em todo lugar?”, “por que Deus age como se tivesse se esquecido totalmente de alguns povos?” e, “por que esse mesmo Deus soterrou Zilda Arns, um símbolo do exemplo contra o maior dos males modernos; a omissão dos bons?” Mas daí fui arrancado da minha confortável perplexidade pela realidade, em toda sua violência habitual, pois os deuses pouco apitaram em toda essa história.
Ainda fico surpreendidíssimo quando me descrevem o funcionamento do mundo. Algumas coisas parecem crenças dos teóricos da conspiração. Outras, de esquerdistas de boutique que usam camisa do Che. Mas é inegável que nosso portentoso Iphone comprado com tanto suor é fruto direto do esfacelamento de vários países a la Haiti, promovido pelos americanos, a fim de consolidar um ideal de uns 150 anos; transformar o mundo todo num mercado que consuma ad eternum os badulaques made in USA. Um tipo de pilhagem global que convencionou-se por “Globalização”, pois mais belo.
Empresas Unidas da América
Tudo verdade. Ouça essa do presidente americano William Mckinley, antes de ser eleito em 1897 : “Precisamos de um mercado externo para nossos produtos”. Tempos depois viriam a anexação do Panamá, a expansão para o Havaí, a guerra americo-espanhola por causa de Cuba e a omissão de ajuda à campanha de independência do Haiti. Enfim, o tipo de sacanagem americana de tricentésimo grau que viria se tornar comum e assim permanece.
O Haiti foi um sucesso econômico durante o século 18, por causa de suas plantações de açúcar e café, operadas por larga mão de obra escrava. Cansados do perrengue (expectativa de vida média de 21 anos), os escravos se levantaram e detonaram as tropas de Napoleão numa guerra que durou 12 anos. O Haiti decretou sua independência em 1804. Foi o começo da liberdade e o fim da esperança, pois já de cara tiveram que pagar milhões de francos em reparação à França (não é piada).
Vale lembrar que o governo dos EUA não apoiou o movimento de independência haitano, temendo os efeitos que uma classe dirigente liberta e negra teria na região. Vai que a valiosa Cuba inventasse moda e seguisse o mesmo caminho…
Vale lembrar, não menos, que os haitianos se sacanearam também. E muito. O que de fato os sepultou, imagino, pois dificilmente alguém nos causa mais mal do que nós mesmos. Assim com pessoas, assim com Estados.
Como se já não tivessem bastado os ditadores Papa e Bay Doc, os pobres haitianos ainda têm que aguentar um cônsul ( ainda que honorário ) dizendo que o país está f… por causa do vudu. Vudu ou não, sei lá, mas que esse caras estão f…, ah, isso estão.
Mas foi a natureza que deflagrou o desespero secular do Haiti. O que Deus tem a ver com isso? Bom, apelamos aos deuses quando afinamos porque a coisa engrossou, ou porque não conseguimos explicação cartesiana para o ocorrido. A tragédia haitiana é a glória dos ateus: “Olhaí! Não falei que Deus não existe?” E a oportunidade dos crentes: “No fim vai ser bom porque agora todos os olhos estão voltados para o Haiti. Não se esqueça que Deus escreve certo por linhas tortas…” e por aí vai. O terremoto foi terrível, mas foi a ideia de desenvolvimento econômico a qualquer custo como única medida de felicidade das nações que jogou o Haiti nas trevas.
Treva, aliás, foi o que nos obrigou a criar os deuses (não o contrário). Como os nossos antigos poderiam explicar a noite e o dia? Ou as tempestades e outros desastres naturais? Ou a vida como ela simplesmente é?? Não era bolinho. Restava apelar para histórias cabulosas, sobre deuses que investiam suas fúrias contra nós ou que nos faziam sofrer por tabela enquanto acertavam as contas uns com os outros. Uma das lendas mais antigas registradas a respeito dos fenômenos naturais é a de Thor, deus do trovão, da mitologia nórdica.
Thor era o deus no norte da Europa antes de ser desbancado por Cristo. Acreditavam que ele dava suas bandolas numa carruagem movida a bodes e que quando requebrava seu martelo, produzia trovões. Estes, por sua vez, anunciam toró, e como sem chuva não há colheita, Thor fazia o maior sucesso entre os camponeses escandinavos antigos. Era o superpopular deus da fertilidade. Era tão pop que ganhou até um dia: Torsdag, dia de Tor, quinta, em norueguês, até hoje.
Aos americanos, ficou Thursday, pois eles também admiraravam o poder de Thor. Aliás, admiravam tanto que em meados dos anos sessenta, eles se apropriaram do pobre deus e o transformaram em mais um agente da propaganda governamental.
Em 1962, já tendo criado o Quarteto Fantástico, o Hulk e o Homem Aranha, Stan Lee recebeu a incumbência de criar um super-herói que fosse diferente de todos os outros. Como já tinha alienígenas e cientistas negligentes em seu panteão, teve que apelar para um deus. Estudou mitologia nórdica e transformou Thor em herói. Com as devidas mudanças no modelito, claro.
Os EUA empacotam qualquer coisa e as enfiam goela abaixo de todo mundo, mundo afora. Enfiaram na minha, em menino, e engoli sem protesto, pois Thor tinha capa e martelo supimpas, e usava pronomes pessoais do caso reto e oblíquo bíblicos, o que me fazia acreditar que ele realmente era um deus, o que remetia a Deus, que segundo os maristas que me formataram, era tudo de bom.
Mas Thor já havia sido cooptado. Sim, no começo dos anos 70, ele passou a integrar a super equipe ” The Avengers” ( Os Vingadores” ) lideradas por ninguém menos que o Capitão América. Em certa história, Thor se vira sei lá para quem e manda a seguinte pérola: ” Sendo um deus, não me alio a qualquer mortal, mas seguirei este homem até os portais do inferno”, se referindo ao Capitão. Eita.
Em breve, Thor vai virar filme, arrebatando mais uma legião de jovens a achar que os EUA são os super heróis que vão resolver a vida dos oprimidos, quando na verdade, causam tanta desgraça quanto tentam impedir. Afinal, depois de terem destruído o Haiti por ação indireta ou omissão, mandam sopa, dinheiro e soldados que, de fato, ajudam e fazem a diferença. As mãos que destroem também podem construir e coisa e tal…
Modelo econômico parasita corroborado por milhões de cúmplices (nós inclusos), irmãos sacaneando irmãos, maganos de todo tipo se valendo da desgraça para se promover , a real comoção para ajudar, a tristeza dilacerante pelos menos afortunados. É tudo tom de cinza misturado em demasia. Os deuses, com seus confortáveis preto e branco, são de apelo irresistível. A única coisa que me preocupa é que as crianças também acham.
Enquanto o filme não chega, seguem alguns registros do rei do trovão em todo seu esplendor. Ou nem tanto…
Thor versus Hulk: A Marvel e a Lionsgate lançaram uma animação direta para o vídeo no começo do ano passado. Ainda não consegui ver o filme inteiro, mas a animação é bem competente. Para mim, é o melhor registro de Thor nas telas até hoje.
Thor versus Hulk com gente de verdade: Todos cometemos erros na vida. Maior azar dos atores, cujos papelões ficam registrados, como se uma videocassetada infinita.
Abertura do desenho desanimado em português: Em algum lugar entre o clássico máximo e o inacreditavelmente tosco.
Bái.










