Rapidinhas III

Porque nem sempre é possível fazer as coisas com a calma que gostaríamos.  Ilustração:  Donald Soffritti

 

  • E é Geyse pra cá, Geyse pra lá. E a despeito de todos os psicólogos, liberais, conservadores e o escambau, o cerne da questão continua incólume. Mais por medo do espelho do que por incompetência, pois não acho que essa atual sociedade tenha como gostar de seu próprio reflexo. Mas é só a minha opinião. Talvez haja quem já pensou no assunto e a tenha contrária.

Guimarães Rosa dizia que o sapo pula não por boniteza, mas por precisão. O pulo preciso de Geyse está aí como lição a quem quiser aprender. Um vestido suficientemente curto causa mais furor do que ter o que dizer. Conheço inteligentes que precisariam de duas vidas par ter a exposição que a garota conseguiu nessas últimas semanas. Quanto dura, vai saber, mas ficam claros os valores da mídia, que se alimenta e retroalimenta os valores da sociedade. Como chegamos nisso, é uma longa historia, que imagino, ficará desconhecida à maioria, como várias outras.

 

Ela não lava esse vestido nunca?

 

Agora, o sapo que se dane. O que queremos é a boniteza. Alguém aí realmente acha que Geyse teria sofrido o que sofreu se fosse bonita e gostosa? Falei de preconceito no último post e o que não foi dito, por falta de lauda, é que entre judeus, negros, japoneses e alienígenas, ninguém sofre mais preconceito do que mulher feia. São as feias que ficam sem carona. São elas também que, quando tão burras quanto uma bonitinha, são desclassificadas na entrevista de emprego, porque a bonitinha, ao menos, enfeita.

  Se sobrevalorização da beleza é feio e sociedades respeitáveis deviam repensar o assunto, daí já são outros quinhentos. Mas achar que o caso em questão não passa pelo peso que damos à aparência é hipocrisia além do saudável. Tanto no campo privado quanto no público, quando o assunto é chamar a atenção, a pobre Geyse, que de pobre nada tem, sabe muito bem o que faz . Aprendeu o jogo e agora faz muito bem o seu papel.

E nós, o nosso, descendo o cacete nos bodes expiatórios, do alto de nossas moralidades superiores. E quem pode nos culpar? É uma delícia. É também nossa recompensa por não perseguirmos nossos 15 minutos de glória através da apelação. Agora, tirando todo o trólóló, insisto; se ela fosse bonita e gostosa, isso não teria acontecido.

 

  • Tem um festival passando todos os filmes do Woody Allen, no centro. Fui ver ” Todos Dizem Eu te Amo” (Everyone says I love you), de novo, pois Veneza e Paris nunca cansam os olhos (olhái, de novo a beleza. Se fosse Carapicuíba, todo mundo teria saído antes do meio) . Apesar de ser um musical, é um Woody Allen, o que torna tudo mais digerível. Não sei vocês, mas odeio musicais. Parte da minha birra com Disney vem do fato de ter que aguentar toda aquela cantoria que entrecortava as histórias. Há algumas boas sequências como a de Scar (Jeremy Irons em ótima forma), em o Rei Leão (Lion King,1994), convencendo as hienas a ajudá-lo na sua tentativa de golpe de Estado e infanticídio. E claro, aquela bela cena das hienas marchando à la soldados Nazistas enquanto Scar faz as vezes de Hitler.

 

 A cena foi tirada do filme/propaganda nazista  “O triunfo da vontade“  (Triumph des Willens, 1934) de Leni Riefenstahl  e chocou alguns. Claro, porque geralmente os pais que dão “Pinóquio” aos filhos não sabem que Walt frequentava as reuniões do Partido Nazista da América em 1938, período em que o filme estava em produção. Filme que, aliás desfila as concepções de Disney sobre povos (raças), economia e sociedade. Se assim era então, é difícl de acreditar que também o foi em 1994 ?

 
Mas já escrevi sobre as semelhanças entre Walt e Adolph aqui e não pretendo fazê-lo de novo aqui. Do que falava mesmo, ah, sim, de Woody Allen. Um de seus filmes mais inspirados, para mim, é Manhattan, que conta com a trilha sonora de Gershwin; Rhapsody in blue. Uma das animações mais inspiradas dos estúdios Disney também.
  
 
Rhapsody in Blue, segmento de Fantasia 2000, da Disney. “Simplesmente um luxo”, como diria o finado Athayde
 
  
  • E é chegado o Djingoubéu. Já começaram os convites para confraternizações. O pior é que é tudo happy hour, como se cruzar São Paulo por terra durante o rush fosse divertido. Claro, que é possível cruzar a cidade também acima ou sob a superfície, mas a primeira é cara demais, a segunda, geralmente só leva até a metade do caminho. Mas um amigo super entusiasta da tecnologia me convenceu que um dia todas as confraternizações serão realizadas através do Orkut, Facebook ou Twitter. No caso desse último, será uma pena, pois todas aquelas pérolas habituais que costumam ser ditas durante tais ocasiões ficarão confinadas a não mais que 140 caracteres por vez. Resisti estoicamente ao celular até 2004, quando o digital venceu. Agora, de novo fui rendido. Estou super antenado. Quem pode me acusar de fracassar se o próprio Batman se vê prestes a sucumbir à pressão?

 

 

Tenho que ir.  Vou dar umas confraternizadas por aí em carne e osso enquanto o facebook, orkut e o twitter não dominam as relações sociais de vez. Bái.

É Duro Ser Retirante ou; Vem Aí o Novo “Lost”

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“Retirantes”, de Cândido Portinari. Obra de 1944

É difícil morar no país dos outros. Já morei. Às vezes acho que o faria de novo e para sempre. Às vezes, não sei.

O complicado é ser o gringo. Ter que entender tudo e se fazer entender. Se esforçar para captar as bobagens na roda de bar (ou de pub), transformando em labuta o que a rigor, baboseira é.  Ter a sensação ,em variante constância, de jamais poder ser plenamente compreendido.

Tirando um coreano aqui e ali, praticamente não houve forasteiros nas escolas em que cumpri pena. Os filhos de italianos, espanhóis, japas, etc. já haviam se tornado totalmente brasileiros, ao passo que os nordestinos ficavam do lado de lá do apartheid social. Havia muito palavrório sobre como esses últimos deveriam  todos  ser colocados num caminhão e mandados de volta ( ou num barco e afundados, dependendo do grau de exaltação do locutor) mas o máximo em hostilidade habitual era definir como “baiano” tudo que fosse cafona, tosco ou mau feito.

Coincidentemente (ou não),  foi mais ou menos nessa época que criei um personagem chamado Marlo, o homem que veio de longe.

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“Marlo, o homem que veio de longe”. Um retirante intergalático disposto a singrar os mares da hipocrisia em busca de ilhas de coerência.

O desprezo de quem recebe sempre é coisa manifesta. Seja através de histórias de graça, estilingadas ou bombas. Até que se passem alguns anos e o estrangeiro ganhe status de cidadão e o politicamente correto ou a miscigenação reduzam as diferenças a níveis toleráveis.

Sempre achei espantoso como o Brasil está disposto a abraçar o diferente a despeito de cor ou crença. Só pedimos que se aprenda a língua . Alguns povos são mais pluraristas do que o convencionalismo popular sugere, como os franceses ou ingleses. Mas se há país para ensinar como fazer povos diferentes viverem em harmonia , este é  o Brasil, que é taxado de ultraracista pela mídia e por ONGs bicho grilo , mas cuja tensão racial é, na verdade zero. Alguém aí já viu Mamelucos pregando superioridade étnica ou cafuzos e índios com paus e pedras na Avenida Paulista?  Nosso problema não é racismo, é preconceito. Não somos maus,  só ignorantes:

mp-brasil cópia

A visão paulistana das coisas

Os retirantes intergaláticos não diferem muito daqueles do além mar. Tanto que em inglês, a palavra é mesma; Alien. Venha o coitado de Carapicuíba,  da Nicarágua ou de Plutão.  Com isso em mente, o diretor sul-africano Neill Blomkamp saiu pelas ruas de Joanesburgo ( “Jo Burg” para os íntimos ) entrevistando a população local sobre o que achavam dos nigerianos, que  para lá se retiraram em busca de uma vida melhor e blá blá e acabaram vivendo à margem da sociedade, em favelas sujas e violentas e blá blá.

Um festival de negros falando mal de negros, claro. O que é sempre bom para nos lembrar que intolerância, preconceito e racismo, embora se misturem, nem são a mesma coisa nem,  sempre têm que a ver com a cor da pele.

Enfim, o lunático Blokamp pegou os tais depoimentos, mostrou para o diretor de Senhor do Anéis ( Peter Jackson, que se apaixonou pela idéia e viabilizou-a) e fez um documentário fictício sobre retirantes intergaláticos que aterrisam em Jo Burg e acabam em guetos. Se chama Distrito Nove, e se  estiver com sorte, ainda está passando num cinema perto de você.

Distrito Nove: Andamento  incomum,  final imprevisível  e o mais próximo de um herói que o filme tem poderia ter sido interpretado por Woody Allen com uma pistola laser. Além disso,  gerou mal estar, chegando a ser proibido na Nigéria. Mais

Mas essa não foi a primeira vez que retirantes cósmicos vieram a Terra como exilados. Em 1989, a Fox estreou a série Alien Nation. Uma série dramática/de ação muito inspirada, onde uma colônia de refugiados chegava em Los Angeles e tinha que se virar como podia para viver. Os protagonistas eram um retirante gambé e seu parceiro, cover do Mick Jagger. Segue a abertura, cuja música, cantada na língua dos retirantes, era bomástica.

Existem as histórias onde nós, humanos, somos os retirantes. A minha favorita sempre foi  “As aventuras de Galaxy Rangers ” de 1986, produzida por Robert Mandell.   Dois embaixadores alienígenas chegam à Terra pedindo nossa adesão à liga dos planetas. Em troca, oferecem a tecnologia que nos permite controlar o hiperspaço, possibilitando viagens para lugares muito distantes. Com isso, começamos a  sair por aí, fazendo colônias à torto e a direito (devem ter se arrependido, os embaixadores) e para que a paz nas novas fronteiras fosse mantida, o Ministério para Assuntos Extraterrestres (BETA) reuniu quatro indivíduos com “altos ideais de justiça”.  Animal.

Os roteiros adultos de GR eram um breve raio de esperança entre os He-Mans e afins que inundavam o Show da Xuxa. Também foi nesse desenho onde muita gente viu uma animação 3D pela primeira vez.

Já Invader Zim (Invasor Zim), é uma paródia do retirante conquistador e figura entre os melhores desenhos dos anos 2000, ao meu ver. Cores, animação, roteiro, tudo impressionantemente bem cuidado. Talvez isso tenha impedido o sucesso de Zim. É uma produção muito mais artística do que comercial.

Zim vem de uma raça de invasores. Seus superiores o consideram um incompetente. Zim está convencido do contrário e constantemente aluga seus superiores (chamados de Os Superiores) a fim de convencê-los de seu ponto de vista. Para se verem livres do mala, Os Superiores mandam Zim para uma zona vazia no cosmo, acompanhado de um robô defeituoso. A zona vazia acaba sendo a Terra e o robô (GIR) acaba sendo uma das criaturas mais debilóides e engraçadas que já existiu em desenhos animados. Abaixo, a maluquice de GIR se manifesta em todo seu esplendor.

E finalmente, “V”. A ABC está refilmando o clássico dos 80. As apostas estão altas de que será o novo LOST. Eu acho que será infinitamente superior, mas sou suspeito. Assistam ao trailer e sigam seus próprios sentidos de aranha.

Enfim, costuma ser difícil morar no país dos outros. Os retirantes o fazem por motivos diversos, mas o fazem geralmente porque é ainda mais difícil morarem nos próprios países. Logo, postas de lado infantilidades patrióticas, sempre respeito mais os países de onde não haja uma grande massa de gente desesperada querendo sair.

Quando os 3 milhões de brazucas lá fora começarem a voltar, gente talentosa deixar de pensar em ir embora e houver uma fila quilométrica de gringo querendo entrar, terei que fazer menos força para acreditar que o “ Brasil está crescendo e a economia está melhorando”, deixando de crer que a mídia e o governo  estão tentando me ludibriar (de novo).

Não vejo a hora…

trilha sonora sugerida:

Genesis – Illegal Alien

Letra



Comes Lollo ou Milkybar ? ou; Vc acha q sou sócio da Light?

milkbar

Cuidado com as palavras. Chamar o chocolate pelo nome errado pode entregar sua idade.

Sempre achei curioso o quanto resistimos estoicamente às mudanças que pouco a pouco nos transformam em nossos pais, mesmo as sabendo inevitáveis.

Já vão lá alguns anos que não mais faço parte da Jovem Guarda. Freqüentemente me esqueço disso, em parte, mas nas semanas passadas, encontrei dois de seus representantes que me fizeram lembrar, em todo. Um de seis e outro de quinze.

Sendo a chatice independente de sexo, idade, etc., lá me veio o mala de seis anos querendo teimar que o Bumblebee, dos Transformers, nunca tinha sido um fusca. Eu disse que no meu tempo ele costumava sê-lo. O petiz duvidou. Sim. Com todo o vigor e petulância que só sua idade permite.

bumble_bee copy

No meu tempo, lá nos longíquos oitenta, o Bumblebee virava um fusca e estrelava um desenho animado humilde, bem diferente da parafernália cinematográfica 3D que assola a juventude de hoje.


Em outro churrasco em casa de outros amigos, o fosso entre gerações novamente me atingiria como um sopapo, em forma de conversa com alguém de 16 anos. Pois no meu tempo, a MTV, como o nome sugere, era apenas um canal de TV que apenas tocava música. Nem mostrava programas com dois imberbes se pegando, nem lançava vídeo games.

O adolescente ouviu curioso às histórias do jurássico. Mas às tantas, percebi que não eram as diferenças entre o quê assistíamos ou ouvíamos que nos separavam anos-luz. Ou menos ainda de como fazíamos isso, pois ambos nos valemos das mesmas ferramentas para termos acesso a cultura de diversidade infinita pagando nada além do acesso ao provedor. A maior diferença estava no fato de ele fazer parte de uma novíssima geração que não se impressiona com revoluções, pois está acostumado a várias acontecendo simultaneamente. É a geração digital.

Me dei conta que haverá lacuna menos abismal  entre a geração do me avô e a minha do que entre a minha e a dos meus filhos (se os houver). As gerações analógicas sonhavam com o futuro, a digital, vive nele. As analógicas se assombravam quando viam um novo advento, ao passo que a digital nem se dá conta , tamanha a quantidade de cacarecos já disponíveis e, quando se dá, é sem qualquer choque.

Entre os análogos, o problema era os antigos não entenderem a música dos jovens. Hoje, entre análogos e digitais, o problema é não entenderem sequer como ela é feita.

bustop blues

A nova geração nunca foi tão incompreendida pelos antigos.

Meu pai quase teve um treco quando soube que seus discos deixariam de funcionar a agulha para serem movidos a raios laser. Claro, pois ainda tentava assimilar o transistor.

Já o vovô odiava automóveis. Para ele, a carroça havia sido um erro.

Pré Historic Pink, um clássico,  de 1968. O Vovô Lovric, sempre avesso a novas modas, bateria palmas e assinaria embaixo aos feitos da Pantera.

As coisas do nosso tempo sempre nos parecem melhores. Será que estamos nos dirigindo ao abismo do fim dos tempos onde tudo gradativamente só piora, ou estaria o passado envolto em romantismo e lapsos de memória ?

Como exemplo do presente apocalíptico, diz-se muito que os jovens tiveram sua escrita aniquilada pelo computador. Bobageira habitual de VEJA. Nunca se escreveu tanto em nenhum outro período da história. A geração do meu pai, por exemplo, escrevia até o fim do terceiro científico. Depois, se pertencesse aos eleitos (não era o caso), viraria advogado ou médico e continuaria os escritos. Ou caso fosse repórter, escritor  ou  romântico incorrigível, ou se houvesse parentes distantes. Senão, jamais escrevia.

Hoje, como grande parte da socialização se dá online, é necessário escrever o tempo inteiro. Quando eu era aluno, eu só escrevia o que os capatazes ordenavam, pela nota, e ninguém mais lia. Hoje, usando Twitters, Orkuts e o escambau, os jovens escrevem para uma platéia , alternando o discurso conforme os interlocutores mudam. Um povo fundou toda uma cultura baseada nesse contexto. Foram os gregos. Hoje, transformamos em escrita o que os gregos pregavam oralmente e democratizamos a prática a ponto de permitir que qualquer pessoa em qualquer cafundó participe.

Já um Sócrates ou um Aristóteles (menos ainda um Platão) da idade moderna, também não os vejo, ao passo que  beócios e filisteus, a dar com pau. Mas aí já são outros quinhentos…

Até o Batman, que sempre se deu bem com apetrechos tecnológicos, anda se estrepando ultimamente.


Os pomposos acadêmicos e suas grandes teses que me perdoem, mas por mais que entenda e respeite a função da academia, o cenário atual permite mais democracia do que qualquer grego jamais ousou sonhar. Mas a que custo? Bem,  perderemos o “você” para “vc”. E daí? Sobrevivemos à perda de  “Vossa mercê” e “vosmicê”, respectivamente.  A batalha está perdida e no entanto, continuamos resistindo às mudanças estoicamente, pois “no nosso tempo é que era bom”.

Incrível como os humanos têm dificuldade em se habituar a um universo de ganhos e perdas. Segundo as máquinas do Matrix, se só houvesse ganhos, também teriam.  Meio zuado, o mundo.


Brasil, O Conto

brasileiros

E as Olimpíadas vêm aí. Ao Brasil, ao menos um ouro, já pertence, como se de direito.  Pois em tal modalidade, não há EUA, Cuba, ou elemento na Europa capaz de fazer frente ao Impávido Colosso.

Também pudera, os técnicos foram supimpas. A começar por aquele patife de bombachas, o Getúlio.

O Getúlio era osso duro. Mantinha o Brasil na rédea curta. Mandou-o para a guerra. Dizia que o Brasil, um dia, seria grande e respeitado, coisa que, claro, o gigante adorava ouvir. Tanto que começou a repetir para si mesmo que seria grande no futuro. Pratica, aliás, que adotaria por toda a eternidade. Como se ao repetir a frase o suficiente, seu tremendo complexo de inferioridade definhasse.

O velho Getúlio sucumbiu às pressões habituais da tutelagem e meteu-se uma bala no peito. O choque foi enorme, pois apesar da sisudez, muitos achavam que Getúlio havia sido um bom pai para o pobre Brasil. Na verdade, muitos o consideravam o único pai que o Brasil jamais tivera.

Passado o luto, sem ter resolvido suas questões de identidade ou seus problemas financeiros, o Brasil chegou à puberdade e nela, com tudo entrou. Saiu da roça, adquiriu um look moderno e progressista e descolou uma Brasília. Tudo influência de Juscelino, um mineirinho boa praça e come quieto que inflou a esperança do Brasil aos píncaros.

Brasil, contudo, evitava se conhecer. A idéia de auto-análise lhe era intolerável. Pior ainda: se contorcia de inveja ao ver seus primos do além mar; ricos e cultos. E acostumado a não ver nada além da superfície, Brasil ignorava os grandes conflitos internos e externos pelos quais seus primos haviam tido que passar antes de atingirem o invejável estado de graça. Ignorava que algumas coisas só vêm com o tempo e com a experiência, e que a vida é um ofício cansativo.

“Ofício cansativo uma pinóia. A vida é festa!”, dizia o Brasil a si mesmo, quando confrontado com o desenvolvimento dos velhos (porém sólidos) primos europeus. “O negócio é ser igual àqueles lá do norte. Jovens, ricos, felizes, talentosos e todo mundo paga um pau”. E foi assim que Brasil rompeu com os antigos e passou a ter  os jovens do norte como norte, os imitando em praticamente tudo. Aqueles cinquenta funcionavam como uma empresa. Tamanha era a unidade, que a maioria se referia a eles como se apenas um. O Estados Unidos. EUA, em apelido.

Brasil era basbaque de EUA fazia tempo. Na infância inventou um nome igualzinho: Estados Unidos do Brasil.  Na adolescência, ainda maravilhado com o vigor  e poder  de EUA, mas buscando identidade e mostrando semancol,  mudou seu registro para República Federativa do Brasil. E jurou que um dia, aprenderia o verdadeiro significado de “federativa”.

Brasil promoveu tal mudança durante um dos períodos mais atribulados de sua existência. Pouco antes, seu novo técnico, um tal de Jânio, bebera umas a mais e entrara mal numa curva com a Brasília. Baixou a polícia, deu um toco em Jan-Jan, tomou a Brasília e deixou o Brasil de castigo por trinta anos. “Pra ver se aprende a ser gente” diziam os hómi.  E os treinos passaram a ser conduzidos a chibatadas por técnicos cada vez mais carrancudos.  Cinco ao todo. Dois humanistas, dois carrascos e uma besta quadrada.

E Brasil seguia sua história, despertando o interesse de vários estudiosos que formulavam teorias para explicar como o dito cujo conseguia a proeza de ser rico e pobre, europeizado e caipira, com complexo de inferioridade e ideias de grandeza, tudo ao mesmo tempo.

Os juros da Brasília comprada a prazo e os gastos abusivos com a gasolina, num período em que esta se tornara absurdamente cara, levaram o Brasil a perder uma década inteira, do ponto de vista financeiro. E como “desgraça pouca…”, um tal de Ribamar Sarney chegou montado em seu boi-bumbá e arrendou o pobre, desorientado e confuso Brasil por cinco intermináveis anos.

Quem colocou Brasil nos trilhos em que se encontra hoje foi um tal de Fernando, que derrubou as barreiras e permitiu que Brasil falasse com o mundo, pois antes, para se conseguir uma mera linha telefônica, eram necessários três anos de fila.

Os dois Fernandos , o cassado e o reeleito, mais Luís Ignácio, abraçaram as mesmas táticas neoliberais de “coaching”. Os dois últimos, em particular,  elevaram à enésima potência a tendência começada por Getúlio e seguida por Juscelino, de fazer Brasil acreditar ser maior do que é, estar em estágio muito mais avançado do que realmente está.  Fernando, inclusive (o reeleito), fez o Brasil acreditar por algum tempo que ele era mais rico que os  EUA, fazendo o dinheiro do Brasil valer mais.

Mas era tudo maquilagem, e eis que um belo dia chegou a conta do cartão. E lá foi Brasil, ralar o orifício para pagar. E em nenhum momento, ao menos que eu saiba, lhe ocorreu que talvez um planejamento de longo prazo, com investimento em boa educação e coisa e tal fosse uma maneira mais eficaz de conseguir o que queria.

Luís Ignácio continua exatamente de onde  Fernando parou. Não mexeu vírgula no programa. A diferença é que sabe se comunicar com Brasil melhor do que qualquer um de seus antecessores, de longe. Está fazendo pela moral do Brasil o que ninguém fez desde Juscelino, que embora o tenha submetido a um processo de amadurecimento precoce e lhe tenha  negado o acesso à saúde e educação que  este sempre precisara, o deixou bonito na fita, travestindo-o em modernidade.  E tal qual Juscelino, Luís Ignácio faz Brasil crer que a maquilagem do progresso compensará seu descaso com educação, saúde, moradia e segurança.

O Brasil tem sentido uma estranha sensação de deja vu atualmente, misturada com euforia  e preocupação.  Afinal, qual será sua performance nas modalidades “organização”, “prestação de contas”, “cumprimento de prazos” ou “capitalização sobre os jogos”? Ninguém sabe. Como a maioria, desejo o melhor para o Brasil, como de costume aliás.

Mas ao Brasil, ao menos um ouro, já pertence, como se de direito.  Pois em tal modalidade, não há EUA,  Cuba, ou elemento na Europa capaz de fazer frente ao Impávido Colosso.

Sim. O Brasil queima etapas como ninguém. Não há páreo para ele no salto de etapas.

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