Sacanearam o Haiti ou; Como Vender um deus

10 mil soldados americanos em ajuda ao Haiti. A mão que puxa o tapete também constrói. Às vezes, sem querer querendo.

Este ano, esta é a primeira linha que escrevo aqui. Não tem sido falta de matéria, ao contrário; falta de tempo também não; falta de disposição é possível. Agora volta.

Matérias sobre o Haiti sobram, tais quais imagens. A Folha traz uma foto de horror por dia (seguida de outra do São Paulo Fashion Week), e informa que novos desdobramentos da hecatombe podem ser acompanhados em tempo real, em seu site. Deus, tende piedade… quantas vezes é humanamente possível ser informado que a terra tremeu e milhares morreram?

E a Gisele contribui com um milhão e meio e todos ficaram sabendo e o nome dela apareceu em jornais ao redor do globo. Se tivesse que ter pago por tal publicidade, teria gasto muito mais. O que isso quer dizer? Nada. Só quer dizer o que quer dizer. Mas registro aqui meu respeito por quem doou e não apareceu.

Conforme fui ouvindo sobre a tragédia, os pensamentos foram se desdobrando sem quaisquer rédeas. Os primeiros em forma de questões; “mas quem será esse demônio que exerce seu poder em todo lugar?”,  “por que Deus age como se tivesse se esquecido totalmente de alguns povos?” e, “por que esse mesmo Deus soterrou Zilda Arns, um símbolo do exemplo contra o maior dos males modernos; a omissão dos bons?”   Mas daí fui arrancado da minha confortável perplexidade pela realidade, em toda sua violência habitual, pois os deuses pouco apitaram em toda essa história.

Ainda fico surpreendidíssimo quando me descrevem o funcionamento do mundo. Algumas coisas parecem crenças dos teóricos da conspiração. Outras, de esquerdistas de boutique que usam camisa do Che.  Mas é inegável que nosso portentoso Iphone comprado com tanto suor é fruto direto do esfacelamento de vários países a la Haiti, promovido pelos americanos, a fim de consolidar um ideal de uns 150 anos; transformar o mundo todo num mercado que consuma ad eternum os badulaques made in USA. Um tipo de pilhagem global que convencionou-se por “Globalização”, pois mais belo.

Empresas Unidas da América

Tudo verdade. Ouça essa do presidente americano William Mckinley, antes de ser eleito em 1897 : “Precisamos de um mercado externo para nossos produtos”. Tempos depois viriam a anexação do Panamá, a expansão para o Havaí, a guerra americo-espanhola por causa de Cuba e a omissão de ajuda à campanha de independência do Haiti. Enfim, o tipo de sacanagem americana de tricentésimo grau que viria se tornar comum e assim permanece.

O Haiti foi um sucesso econômico  durante o século 18,  por causa de suas plantações de açúcar e café, operadas por larga mão de obra escrava. Cansados do perrengue (expectativa de vida média de 21 anos), os escravos se levantaram e detonaram as tropas de Napoleão numa guerra que durou 12 anos. O Haiti decretou sua independência em 1804. Foi o começo da liberdade e o fim da esperança, pois já de cara tiveram que pagar milhões de francos em reparação à França (não é piada).

Vale lembrar que o governo dos EUA  não apoiou o movimento de independência haitano, temendo os efeitos que uma classe dirigente liberta e negra teria na região. Vai que a valiosa Cuba inventasse moda e seguisse o mesmo caminho…

Vale lembrar, não menos, que os haitianos se sacanearam também. E muito. O que de fato os sepultou, imagino, pois dificilmente alguém nos causa mais mal do que nós mesmos. Assim com pessoas, assim com Estados.

Como se já não tivessem bastado os ditadores Papa e Bay Doc, os pobres haitianos ainda têm que aguentar um cônsul ( ainda que honorário ) dizendo que o país está f… por causa do vudu.  Vudu ou não, sei lá, mas que esse caras estão f…,  ah, isso estão.

Mas foi a natureza que deflagrou o desespero secular do Haiti. O que Deus tem a ver com isso? Bom, apelamos aos deuses quando afinamos porque a coisa engrossou, ou porque não conseguimos explicação cartesiana para o ocorrido. A tragédia haitiana é a glória dos ateus: “Olhaí! Não falei que Deus não existe?”  E a oportunidade dos crentes: “No fim vai ser bom porque agora todos os olhos estão voltados para o Haiti. Não se esqueça que Deus escreve certo por linhas tortas…” e por aí vai. O terremoto foi terrível, mas foi a ideia de desenvolvimento econômico a qualquer custo como única medida de felicidade das nações que jogou o Haiti nas trevas.

Treva, aliás, foi o que nos obrigou a criar os deuses (não o contrário). Como os nossos antigos poderiam explicar a noite e o dia? Ou as tempestades e outros desastres naturais? Ou a vida como ela simplesmente é?? Não era bolinho. Restava apelar para histórias cabulosas, sobre deuses que investiam suas fúrias contra nós ou que nos faziam sofrer por tabela enquanto acertavam as contas uns com os outros. Uma das lendas mais antigas registradas a respeito dos fenômenos naturais é a de Thor, deus do trovão, da mitologia nórdica.

Thor era o deus no norte da Europa antes de ser desbancado por Cristo. Acreditavam que ele dava suas bandolas numa carruagem movida a bodes e que quando requebrava seu martelo, produzia trovões. Estes, por sua vez, anunciam toró, e como sem chuva não há colheita, Thor fazia o maior sucesso entre os camponeses escandinavos antigos. Era o superpopular deus da fertilidade.  Era tão pop que ganhou até um dia: Torsdag, dia de Tor,  quinta, em norueguês, até hoje.

Aos americanos, ficou Thursday, pois eles também admiraravam o poder de Thor. Aliás, admiravam tanto que em meados dos anos sessenta, eles se apropriaram do pobre deus e o transformaram em mais um agente da propaganda governamental.

Em 1962,  já tendo criado o Quarteto Fantástico, o Hulk e o Homem Aranha, Stan Lee recebeu a incumbência de criar um super-herói que fosse diferente de todos os outros.  Como já tinha alienígenas e cientistas negligentes em seu panteão, teve que apelar para um deus.  Estudou mitologia nórdica e transformou Thor em herói. Com as devidas mudanças no modelito, claro.

Os EUA empacotam qualquer coisa e as enfiam goela abaixo de todo mundo, mundo afora. Enfiaram na minha, em menino, e engoli sem protesto, pois Thor tinha capa e martelo supimpas,  e usava pronomes pessoais do caso reto e oblíquo bíblicos,  o que me fazia acreditar que ele realmente era um deus,  o que remetia a Deus, que segundo os maristas que me formataram, era tudo de bom.

Mas Thor já havia sido cooptado. Sim, no começo dos anos 70, ele passou a integrar a super equipe ” The Avengers” ( Os Vingadores” ) lideradas por ninguém menos que o Capitão América. Em certa história, Thor se vira sei lá para quem e manda a seguinte pérola: ” Sendo um deus, não me alio a qualquer mortal, mas seguirei este homem até os portais do inferno”, se referindo ao Capitão. Eita.

Em breve, Thor vai virar filme, arrebatando mais uma legião de jovens a achar que os EUA são os super heróis que vão resolver a vida dos oprimidos, quando na verdade, causam tanta desgraça quanto tentam impedir. Afinal, depois de terem destruído o Haiti por ação indireta ou omissão, mandam sopa,  dinheiro e soldados que, de fato, ajudam e fazem a diferença. As mãos que destroem também podem construir e coisa e tal…

Modelo econômico parasita corroborado por milhões de cúmplices (nós inclusos), irmãos sacaneando irmãos, maganos de todo tipo se valendo da desgraça para se promover ,  a real comoção para ajudar, a tristeza dilacerante pelos menos afortunados. É tudo tom de cinza misturado em demasia.  Os deuses, com seus confortáveis preto e branco, são de apelo irresistível. A única coisa que me preocupa é que as crianças também acham.

Enquanto o filme  não chega, seguem alguns registros do rei do trovão em todo seu esplendor. Ou nem tanto…

Thor versus Hulk: A Marvel e a Lionsgate lançaram uma animação direta para o vídeo no começo do ano passado. Ainda não consegui ver o filme inteiro, mas a animação é bem competente. Para mim, é o melhor registro de Thor nas telas até hoje.

Thor versus Hulk com gente de verdade: Todos cometemos erros na vida.  Maior azar dos atores, cujos papelões ficam registrados, como se uma videocassetada infinita.

Abertura do desenho desanimado em português: Em algum lugar entre o clássico máximo e o inacreditavelmente tosco.

Bái.

Rapidinhas III

Porque nem sempre é possível fazer as coisas com a calma que gostaríamos.  Ilustração:  Donald Soffritti

 

  • E é Geyse pra cá, Geyse pra lá. E a despeito de todos os psicólogos, liberais, conservadores e o escambau, o cerne da questão continua incólume. Mais por medo do espelho do que por incompetência, pois não acho que essa atual sociedade tenha como gostar de seu próprio reflexo. Mas é só a minha opinião. Talvez haja quem já pensou no assunto e a tenha contrária.

Guimarães Rosa dizia que o sapo pula não por boniteza, mas por precisão. O pulo preciso de Geyse está aí como lição a quem quiser aprender. Um vestido suficientemente curto causa mais furor do que ter o que dizer. Conheço inteligentes que precisariam de duas vidas par ter a exposição que a garota conseguiu nessas últimas semanas. Quanto dura, vai saber, mas ficam claros os valores da mídia, que se alimenta e retroalimenta os valores da sociedade. Como chegamos nisso, é uma longa historia, que imagino, ficará desconhecida à maioria, como várias outras.

 

Ela não lava esse vestido nunca?

 

Agora, o sapo que se dane. O que queremos é a boniteza. Alguém aí realmente acha que Geyse teria sofrido o que sofreu se fosse bonita e gostosa? Falei de preconceito no último post e o que não foi dito, por falta de lauda, é que entre judeus, negros, japoneses e alienígenas, ninguém sofre mais preconceito do que mulher feia. São as feias que ficam sem carona. São elas também que, quando tão burras quanto uma bonitinha, são desclassificadas na entrevista de emprego, porque a bonitinha, ao menos, enfeita.

  Se sobrevalorização da beleza é feio e sociedades respeitáveis deviam repensar o assunto, daí já são outros quinhentos. Mas achar que o caso em questão não passa pelo peso que damos à aparência é hipocrisia além do saudável. Tanto no campo privado quanto no público, quando o assunto é chamar a atenção, a pobre Geyse, que de pobre nada tem, sabe muito bem o que faz . Aprendeu o jogo e agora faz muito bem o seu papel.

E nós, o nosso, descendo o cacete nos bodes expiatórios, do alto de nossas moralidades superiores. E quem pode nos culpar? É uma delícia. É também nossa recompensa por não perseguirmos nossos 15 minutos de glória através da apelação. Agora, tirando todo o trólóló, insisto; se ela fosse bonita e gostosa, isso não teria acontecido.

 

  • Tem um festival passando todos os filmes do Woody Allen, no centro. Fui ver ” Todos Dizem Eu te Amo” (Everyone says I love you), de novo, pois Veneza e Paris nunca cansam os olhos (olhái, de novo a beleza. Se fosse Carapicuíba, todo mundo teria saído antes do meio) . Apesar de ser um musical, é um Woody Allen, o que torna tudo mais digerível. Não sei vocês, mas odeio musicais. Parte da minha birra com Disney vem do fato de ter que aguentar toda aquela cantoria que entrecortava as histórias. Há algumas boas sequências como a de Scar (Jeremy Irons em ótima forma), em o Rei Leão (Lion King,1994), convencendo as hienas a ajudá-lo na sua tentativa de golpe de Estado e infanticídio. E claro, aquela bela cena das hienas marchando à la soldados Nazistas enquanto Scar faz as vezes de Hitler.

 

 A cena foi tirada do filme/propaganda nazista  “O triunfo da vontade“  (Triumph des Willens, 1934) de Leni Riefenstahl  e chocou alguns. Claro, porque geralmente os pais que dão “Pinóquio” aos filhos não sabem que Walt frequentava as reuniões do Partido Nazista da América em 1938, período em que o filme estava em produção. Filme que, aliás desfila as concepções de Disney sobre povos (raças), economia e sociedade. Se assim era então, é difícl de acreditar que também o foi em 1994 ?

 
Mas já escrevi sobre as semelhanças entre Walt e Adolph aqui e não pretendo fazê-lo de novo aqui. Do que falava mesmo, ah, sim, de Woody Allen. Um de seus filmes mais inspirados, para mim, é Manhattan, que conta com a trilha sonora de Gershwin; Rhapsody in blue. Uma das animações mais inspiradas dos estúdios Disney também.
  
 
Rhapsody in Blue, segmento de Fantasia 2000, da Disney. “Simplesmente um luxo”, como diria o finado Athayde
 
  
  • O Obama, o presidente da mudança, mandou mais trinta mil soldados ao Afeganistão. O legal é que do Afeganistão para o Irã é um pulo, se precisar.  Mas não parece ser essa a intenção do Barack. E como ele nem entende português,  nem lê esse blog, ele não deve ter muito mais de onde tirar essas ideias de jerico, certo?

 

  • E é chegado o Djingoubéu. Já começaram os convites para confraternizações. O pior é que é tudo happy hour, como se cruzar São Paulo por terra durante o rush fosse divertido. Claro, que é possível cruzar a cidade também acima ou sob a superfície, mas a primeira é cara demais, a segunda, geralmente só leva até a metade do caminho. Mas um amigo super entusiasta da tecnologia me convenceu que um dia todas as confraternizações serão realizadas através do Orkut, Facebook ou Twitter. No caso desse último, será uma pena, pois todas aquelas pérolas habituais que costumam ser ditas durante tais ocasiões ficarão confinadas a não mais que 140 caracteres por vez. Resisti estoicamente ao celular até 2004, quando o digital venceu. Agora, de novo fui rendido. Estou super antenado. Quem pode me acusar de fracassar se o próprio Batman se vê prestes a sucumbir à pressão?

 

 

Tenho que ir.  Vou dar umas confraternizadas por aí em carne e osso enquanto o facebook, orkut e o twitter não dominam as relações sociais de vez. Bái.

É Duro Ser Retirante ou; Vem Aí o Novo “Lost”

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“Retirantes”, de Cândido Portinari. Obra de 1944

É difícil morar no país dos outros. Já morei. Às vezes acho que o faria de novo e para sempre. Às vezes, não sei.

O complicado é ser o gringo. Ter que entender tudo e se fazer entender. Se esforçar para captar as bobagens na roda de bar (ou de pub), transformando em labuta o que a rigor, baboseira é.  Ter a sensação ,em variante constância, de jamais poder ser plenamente compreendido.

Tirando um coreano aqui e ali, praticamente não houve forasteiros nas escolas em que cumpri pena. Os filhos de italianos, espanhóis, japas, etc. já haviam se tornado totalmente brasileiros, ao passo que os nordestinos ficavam do lado de lá do apartheid social. Havia muito palavrório sobre como esses últimos deveriam  todos  ser colocados num caminhão e mandados de volta ( ou num barco e afundados, dependendo do grau de exaltação do locutor) mas o máximo em hostilidade habitual era definir como “baiano” tudo que fosse cafona, tosco ou mau feito.

Coincidentemente (ou não),  foi mais ou menos nessa época que criei um personagem chamado Marlo, o homem que veio de longe.

marlo - do preconceito 2

“Marlo, o homem que veio de longe”. Um retirante intergalático disposto a singrar os mares da hipocrisia em busca de ilhas de coerência.

O desprezo de quem recebe sempre é coisa manifesta. Seja através de histórias de graça, estilingadas ou bombas. Até que se passem alguns anos e o estrangeiro ganhe status de cidadão e o politicamente correto ou a miscigenação reduzam as diferenças a níveis toleráveis.

Sempre achei espantoso como o Brasil está disposto a abraçar o diferente a despeito de cor ou crença. Só pedimos que se aprenda a língua . Alguns povos são mais pluraristas do que o convencionalismo popular sugere, como os franceses ou ingleses. Mas se há país para ensinar como fazer povos diferentes viverem em harmonia , este é  o Brasil, que é taxado de ultraracista pela mídia e por ONGs bicho grilo , mas cuja tensão racial é, na verdade zero. Alguém aí já viu Mamelucos pregando superioridade étnica ou cafuzos e índios com paus e pedras na Avenida Paulista?  Nosso problema não é racismo, é preconceito. Não somos maus,  só ignorantes:

mp-brasil cópia

A visão paulistana das coisas

Os retirantes intergaláticos não diferem muito daqueles do além mar. Tanto que em inglês, a palavra é mesma; Alien. Venha o coitado de Carapicuíba,  da Nicarágua ou de Plutão.  Com isso em mente, o diretor sul-africano Neill Blomkamp saiu pelas ruas de Joanesburgo ( “Jo Burg” para os íntimos ) entrevistando a população local sobre o que achavam dos nigerianos, que  para lá se retiraram em busca de uma vida melhor e blá blá e acabaram vivendo à margem da sociedade, em favelas sujas e violentas e blá blá.

Um festival de negros falando mal de negros, claro. O que é sempre bom para nos lembrar que intolerância, preconceito e racismo, embora se misturem, nem são a mesma coisa nem,  sempre têm que a ver com a cor da pele.

Enfim, o lunático Blokamp pegou os tais depoimentos, mostrou para o diretor de Senhor do Anéis ( Peter Jackson, que se apaixonou pela idéia e viabilizou-a) e fez um documentário fictício sobre retirantes intergaláticos que aterrisam em Jo Burg e acabam em guetos. Se chama Distrito Nove, e se  estiver com sorte, ainda está passando num cinema perto de você.

Distrito Nove: Andamento  incomum,  final imprevisível  e o mais próximo de um herói que o filme tem poderia ter sido interpretado por Woody Allen com uma pistola laser. Além disso,  gerou mal estar, chegando a ser proibido na Nigéria. Mais

Mas essa não foi a primeira vez que retirantes cósmicos vieram a Terra como exilados. Em 1989, a Fox estreou a série Alien Nation. Uma série dramática/de ação muito inspirada, onde uma colônia de refugiados chegava em Los Angeles e tinha que se virar como podia para viver. Os protagonistas eram um retirante gambé e seu parceiro, cover do Mick Jagger. Segue a abertura, cuja música, cantada na língua dos retirantes, era bomástica.

Existem as histórias onde nós, humanos, somos os retirantes. A minha favorita sempre foi  “As aventuras de Galaxy Rangers ” de 1986, produzida por Robert Mandell.   Dois embaixadores alienígenas chegam à Terra pedindo nossa adesão à liga dos planetas. Em troca, oferecem a tecnologia que nos permite controlar o hiperspaço, possibilitando viagens para lugares muito distantes. Com isso, começamos a  sair por aí, fazendo colônias à torto e a direito (devem ter se arrependido, os embaixadores) e para que a paz nas novas fronteiras fosse mantida, o Ministério para Assuntos Extraterrestres (BETA) reuniu quatro indivíduos com “altos ideais de justiça”.  Animal.

Os roteiros adultos de GR eram um breve raio de esperança entre os He-Mans e afins que inundavam o Show da Xuxa. Também foi nesse desenho onde muita gente viu uma animação 3D pela primeira vez.

Já Invader Zim (Invasor Zim), é uma paródia do retirante conquistador e figura entre os melhores desenhos dos anos 2000, ao meu ver. Cores, animação, roteiro, tudo impressionantemente bem cuidado. Talvez isso tenha impedido o sucesso de Zim. É uma produção muito mais artística do que comercial.

Zim vem de uma raça de invasores. Seus superiores o consideram um incompetente. Zim está convencido do contrário e constantemente aluga seus superiores (chamados de Os Superiores) a fim de convencê-los de seu ponto de vista. Para se verem livres do mala, Os Superiores mandam Zim para uma zona vazia no cosmo, acompanhado de um robô defeituoso. A zona vazia acaba sendo a Terra e o robô (GIR) acaba sendo uma das criaturas mais debilóides e engraçadas que já existiu em desenhos animados. Abaixo, a maluquice de GIR se manifesta em todo seu esplendor.

E finalmente, “V”. A ABC está refilmando o clássico dos 80. As apostas estão altas de que será o novo LOST. Eu acho que será infinitamente superior, mas sou suspeito. Assistam ao trailer e sigam seus próprios sentidos de aranha.

Enfim, costuma ser difícil morar no país dos outros. Os retirantes o fazem por motivos diversos, mas o fazem geralmente porque é ainda mais difícil morarem nos próprios países. Logo, postas de lado infantilidades patrióticas, sempre respeito mais os países de onde não haja uma grande massa de gente desesperada querendo sair.

Quando os 3 milhões de brazucas lá fora começarem a voltar, gente talentosa deixar de pensar em ir embora e houver uma fila quilométrica de gringo querendo entrar, terei que fazer menos força para acreditar que o “ Brasil está crescendo e a economia está melhorando”, deixando de crer que a mídia e o governo  estão tentando me ludibriar (de novo).

Não vejo a hora…

trilha sonora sugerida:

Genesis – Illegal Alien

Letra



Comes Lollo ou Milkybar ? ou; Vc acha q sou sócio da Light?

milkbar

Cuidado com as palavras. Chamar o chocolate pelo nome errado pode entregar sua idade.

Sempre achei curioso o quanto resistimos estoicamente às mudanças que pouco a pouco nos transformam em nossos pais, mesmo as sabendo inevitáveis.

Já vão lá alguns anos que não mais faço parte da Jovem Guarda. Freqüentemente me esqueço disso, em parte, mas nas semanas passadas, encontrei dois de seus representantes que me fizeram lembrar, em todo. Um de seis e outro de quinze.

Sendo a chatice independente de sexo, idade, etc., lá me veio o mala de seis anos querendo teimar que o Bumblebee, dos Transformers, nunca tinha sido um fusca. Eu disse que no meu tempo ele costumava sê-lo. O petiz duvidou. Sim. Com todo o vigor e petulância que só sua idade permite.

bumble_bee copy

No meu tempo, lá nos longíquos oitenta, o Bumblebee virava um fusca e estrelava um desenho animado humilde, bem diferente da parafernália cinematográfica 3D que assola a juventude de hoje.


Em outro churrasco em casa de outros amigos, o fosso entre gerações novamente me atingiria como um sopapo, em forma de conversa com alguém de 16 anos. Pois no meu tempo, a MTV, como o nome sugere, era apenas um canal de TV que apenas tocava música. Nem mostrava programas com dois imberbes se pegando, nem lançava vídeo games.

O adolescente ouviu curioso às histórias do jurássico. Mas às tantas, percebi que não eram as diferenças entre o quê assistíamos ou ouvíamos que nos separavam anos-luz. Ou menos ainda de como fazíamos isso, pois ambos nos valemos das mesmas ferramentas para termos acesso a cultura de diversidade infinita pagando nada além do acesso ao provedor. A maior diferença estava no fato de ele fazer parte de uma novíssima geração que não se impressiona com revoluções, pois está acostumado a várias acontecendo simultaneamente. É a geração digital.

Me dei conta que haverá lacuna menos abismal  entre a geração do me avô e a minha do que entre a minha e a dos meus filhos (se os houver). As gerações analógicas sonhavam com o futuro, a digital, vive nele. As analógicas se assombravam quando viam um novo advento, ao passo que a digital nem se dá conta , tamanha a quantidade de cacarecos já disponíveis e, quando se dá, é sem qualquer choque.

Entre os análogos, o problema era os antigos não entenderem a música dos jovens. Hoje, entre análogos e digitais, o problema é não entenderem sequer como ela é feita.

bustop blues

A nova geração nunca foi tão incompreendida pelos antigos.

Meu pai quase teve um treco quando soube que seus discos deixariam de funcionar a agulha para serem movidos a raios laser. Claro, pois ainda tentava assimilar o transistor.

Já o vovô odiava automóveis. Para ele, a carroça havia sido um erro.

Pré Historic Pink, um clássico,  de 1968. O Vovô Lovric, sempre avesso a novas modas, bateria palmas e assinaria embaixo aos feitos da Pantera.

As coisas do nosso tempo sempre nos parecem melhores. Será que estamos nos dirigindo ao abismo do fim dos tempos onde tudo gradativamente só piora, ou estaria o passado envolto em romantismo e lapsos de memória ?

Como exemplo do presente apocalíptico, diz-se muito que os jovens tiveram sua escrita aniquilada pelo computador. Bobageira habitual de VEJA. Nunca se escreveu tanto em nenhum outro período da história. A geração do meu pai, por exemplo, escrevia até o fim do terceiro científico. Depois, se pertencesse aos eleitos (não era o caso), viraria advogado ou médico e continuaria os escritos. Ou caso fosse repórter, escritor  ou  romântico incorrigível, ou se houvesse parentes distantes. Senão, jamais escrevia.

Hoje, como grande parte da socialização se dá online, é necessário escrever o tempo inteiro. Quando eu era aluno, eu só escrevia o que os capatazes ordenavam, pela nota, e ninguém mais lia. Hoje, usando Twitters, Orkuts e o escambau, os jovens escrevem para uma platéia , alternando o discurso conforme os interlocutores mudam. Um povo fundou toda uma cultura baseada nesse contexto. Foram os gregos. Hoje, transformamos em escrita o que os gregos pregavam oralmente e democratizamos a prática a ponto de permitir que qualquer pessoa em qualquer cafundó participe.

Já um Sócrates ou um Aristóteles (menos ainda um Platão) da idade moderna, também não os vejo, ao passo que  beócios e filisteus, a dar com pau. Mas aí já são outros quinhentos…

Até o Batman, que sempre se deu bem com apetrechos tecnológicos, anda se estrepando ultimamente.


Os pomposos acadêmicos e suas grandes teses que me perdoem, mas por mais que entenda e respeite a função da academia, o cenário atual permite mais democracia do que qualquer grego jamais ousou sonhar. Mas a que custo? Bem,  perderemos o “você” para “vc”. E daí? Sobrevivemos à perda de  “Vossa mercê” e “vosmicê”, respectivamente.  A batalha está perdida e no entanto, continuamos resistindo às mudanças estoicamente, pois “no nosso tempo é que era bom”.

Incrível como os humanos têm dificuldade em se habituar a um universo de ganhos e perdas. Segundo as máquinas do Matrix, se só houvesse ganhos, também teriam.  Meio zuado, o mundo.


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